Sobre o futuro

Nesse maravilhoso mundo da internet, tem um site chamado FutureMe que permite escrever uma carta para o futuro você. Tu informa um e-mail e uma data na qual a mensagem será enviada para você mesmo. Pode ser daqui até a 50 anos (será que até ainda usaremos e-mail?). Com todo esse avanço da ciência e da expectativa de vida, pretendo seriamente estar por aqui em 2066, e continuar por um bom tempo depois disso. E se der tudo certo, vai ser mais ou menos assim:

:-) (Foto: Advanced Style)

😀 (Foto: Advanced Style)

Fiquei pensando o que escreveria para a futura eu. Acho que começaria lembrando de algumas coisas sobre a Ana de 2016, assim:

Olá Ana, como vai?

Passando por aqui, diretamente do passado para te lembrar um pouco sobre a Ana com 29 anos. Foi nesta idade que eu (tu) se propôs a escrever mais, e vinha dando certo. Espero que tenha continuado e que ainda seja um prazer. Em 2016 o meu (teu) sonho de viagem era uma road trip pela França. Espero que tenha sido ótima – não tinha como não ser, não é? 🙂 Aliás, qual é o teu (meu) sonho de viagem em 2066? Lembra que aos 29 a tua (minha) vontade era fazer coisas que ajudassem as pessoas, que fizessem do mundo um lugar um pouquinho melhor? Espero que tenha conseguido, e espero que ainda continue com essas utopias.

E como não poderia faltar, terminaria com algumas cobranças perguntas:

  • Começou a fazer exercícios? E continuou fazendo?
  • Parou de ficar se explicando?
  • Está colocando mais verde do que amarelo no prato?
  • Superou o medo de altura? (provavelmente não, mas isso nem é tão importante…).

***

Uma das coisas mais legais que já li sobre envelhecimento foi uma crônica da Lya Luft, Velhice, por que não?, do livro Pensar é transgredir. Sabe quando tu pensa alguma coisa e um dia qualquer se depara com um texto que fala exatamente isso (só que bem melhor)? Pois então. Uma coisa que sempre me inquietou foi a frase “velho na idade, mas com espírito jovem”.  O que raios exatamente isso significa?  Coisas boas, creio eu, mas por que essas coisas boas também não podem ser coisas de velho? Qual é o grande pecado em ser velho, que precisa sempre ser adjetivado com esse tal de “espírito jovem”? E não me entendam mal: sei bem que com o passar dos anos a saúde às vezes fica complicada, sem falar no grande preconceito que há em relação aos idosos. Mas não é esse o ponto… Voltando ao texto da Lya: ele diz que “(…) tendemos a considerar a velhice uma condenação da qual se deve fugir a qualquer custo. No espírito de manada que nos caracteriza, adotamos essa postura, que nos paralisa e faz sofrer inutilmente. Isso se manifesta até na pressa com que acrescentamos, como desculpa: ‘Ah, sim, você está, eu estou, velho aos 80 anos, mas… jovem de espírito’. Por que ser jovem de espírito seria melhor do que ter um espírito maduro… ou velho? Será pior ter mais equilíbrio, mais serenidade, mais elegância e até bom humor diante de fatos que na juventude nos fariam arrancar os cabelos de aflição?”. Pois é, será?

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Agora uma pausa para mostrar o dia em que a Lya me mandou beijo:

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Outra coisa que me dá pena é ouvir alguém dizendo “a melhor época da vida é…”. MAS COMO ASSIM? Depois dessa época (seja lá qual for) é só ladeira abaixo? Eu fico realmente e sinceramente com muita pena quando eu ouço isso. E como eu já contei,  a maior mentira que já me contaram é que a adolescência era a melhor época da vida.

É a maior pieguice, mas eu sempre tento pensar que a melhor época da vida é agora 🙂

Otimismo? Temos.

Otimismo? Temos.

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Quem tem medo do Feminismo

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AVISO: este é um textão.

Uma das candidatas bem colocadas na redação do ENEM 2015 disse que aprendeu na internet tudo o que ela sabia sobre o tema. Miga, te entendo profundamente. Foi mais ou menos há uns seis ou sete anos que eu descobri o maravilhoso blog da Lola e tantos outros. E foi quando eu constatei que eu era feminista há muito  tempo, só não sabia. De novo: FEMINISTA. Porque, aparentemente, essa palavra gera medo e outros sentimentos menos nobres.

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Medo, muito medo

Exemplo disso: fim do ano passado a escritora (e feminista) Clara Averbuck foi ao programa Esquenta, para justamente falar sobre o assunto. A Regina Casé iniciou o quadro com o “Teste para saber se você é feminista”, criado por Cynthia Semínaris. Reproduzo aqui:

1. Você concorda que uma mulher deve receber o mesmo valor que um homem para realizar o mesmo trabalho?
2. Você concorda que mulheres devem ter direito a votarem e serem votadas?
3. Você concorda que mulheres devem ser as únicas responsáveis pela escolha da profissão, e que essa decisão não pode ser imposta pelo Estado, pela escola nem pela família?
4. Você concorda que mulheres devem receber a mesma educação escolar que os homens?
5. Você concorda que cuidar das crianças seja uma obrigação de ambos os pais?
6. Você concorda que mulheres devem ter autonomia para gerir seu dinheiro e seus bens?
7. Você concorda que mulheres devem escolher se, e quando, se tornarão mães?
8. Você concorda que uma mulher não pode sofrer violência física ou psicológica por se recusar a fazer sexo ou a obedecer ao pai ou marido?
9. Você concorda que atividades domésticas são de responsabilidade dos moradores da casa, sejam eles homens ou mulheres?
10. Você concorda que mulheres não podem ser espancadas ou mortas por não quererem continuar em um relacionamento afetivo?

Você respondeu “sim” para essas perguntas? Parabéns, bem-vindo ao clube.

F-E-M-I-N-I-S-T-A

F-E-M-I-N-I-S-T-A

Depois do programa, reproduziram parte do quadro e o teste em um site qualquer. Um dos comentários (referindo-se ao teste) dizia: “Mas isso não é ser feminista, isso é apenas ter bom senso.” Mas O QUEEEE?????

What?!

What?!

Um teste elaborado por uma feminista. Que faz perguntas referentes a conquistas históricas do movimento feminista. E que aborda muitas das reivindicações feitas ainda hoje (adivinha por quem?). Mas DEUSOLIVRE chamar isso de Feminismo, esse palavrão. É apenas bom senso.

Aham, senta lá.

Aham, senta lá.

Outro exemplo é a frase “Não sou feminista , sou humanista”, usada exaustivamente. Aff, sério? Uma busca de 10 segundos no Google é capaz de mostrar o problema desta afirmação:

Feminismo: é um movimento político, filosófico e social que defende a igualdade de direitos entre mulheres e homens.

Humanismo: 1. movimento intelectual difundido na Europa durante a Renascença e inspirado na civilização greco-romana, que valorizava um saber crítico voltado para um maior conhecimento do homem e uma cultura capaz de desenvolver as potencialidades da condição humana. 2. conjunto de doutrinas fundamentadas de maneira precípua nos interesses, potencialidades e faculdades do ser humano, sublinhando sua capacidade para a criação e transformação da realidade natural e social, e seu livre-arbítrio diante de pretensos poderes transcendentes, ou de condicionamentos naturais e históricos. 3. vasta formação cultural que abrange o conhecimento das obras clássicas e o saber científico.
 XXX
Ou seja, tu não pode comparar as duas coisas porque elas não têm nada a ver. É mais ou menos como alguém dizer “Não sou gremista, sou canhoto”.
XXX
Hein?!

Hein?!

Qual seria a explicação desse medo todo? Levantei algumas hipóteses.
 XXX
HIPÓTESE NÚMERO 1: o problema é o “ista”.
O “ista” está presente em várias palavras bem ruins (fascista, nazista, racista…) o que poderia trazer uma carga negativa para “feminista”. Mas isso não faz sentido se pensarmos no grande número de palavras que são ótimas também terminadas em ista . Eu nunca vi ninguém odiando um flautista, por exemplo.
XXX
HIPÓTESE NÚMERO 2: o problema é o “femin”.
Na sociedade machista em que vivemos, o que é feminino, o que se refere à mulher, é visto como algo ruim. Algo que remete à fraqueza, à futilidade, à capacidade inferior e tantas outras coisas nada elogiosas relacionadas ao feminino, consciente ou inconscientemente. Aí, um movimento ser chamado “Feminista”, boa coisa não pode ser, não é mesmo? Pois então… esta hipótese só ajuda a confirmar porque o Feminismo é tão necessário.
XXX
HIPÓTESE NÚMERO 3: as ideias erradas sobre o que é o Feminismo.
O Feminismo é múltiplo, porque as demandas são diferentes em diferentes grupos de mulheres (negras, trans, lésbicas, indígenas…). Porém, ideias equivocadas atribuídas ao Feminismo não fazem parte dessas demandas. Duas que me vem à mente:
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– O Feminismo quer obrigar as mulheres a _________________.
Já ouvi gente completando a frase acima com “não se depilar”, “não usar maquiagem”, “não se casar” e várias outras coisas. NÃO, apenas NÃO. O Feminismo não quer obrigar as mulheres a qualquer coisa. O Feminismo quer dar escolhas. Quer se depilar? Ok. Não quer? Ok também. Quer usar maquiagem até em casa? Tudo certo. Quer viver de cara lavada? Também tudo certo. Quer casar de véu e grinalda na igreja com festa e tudo mais? Ok. Quer viver solteira trocando de namorado(a) a cada semana, ou sem namorado(a) nenhum? Ok também, porque a vida e o corpo são teus e de ninguém mais. Vale colocar que o Feminismo questiona/reflete/problematiza por que as mulheres sentem-se pressionadas a usar maquiagem ou casar, mesmo quando não estão confortáveis com isso.
XXX
– O Feminismo prega a superioridade das mulheres em relação aos homens. 

Errado. O Feminismo busca a igualdade de direitos, reconhecendo as diferenças. O machismo é que prega a superioridade de um gênero (o masculino, no caso).

HIPÓTESE NÚMERO 4: os argumentos contra o Feminismo.
Sim, eles existem. Isso não quer dizer que qualquer um deles se sustente. Mas vamos a alguns deles:
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– Se o Feminismo luta por igualdade, deveria lutar pelo alistamento obrigatório para as mulheres.
Novamente, o Feminismo é sobre escolhas. Qual o sentido então de lutar para que o alistamento também seja obrigatório para as mulheres ? Nenhum. O que faria sentido é que o grupo que se sente prejudicado reivindique o fim dessa prática. E adivinhe quem foi que criou o alistamento obrigatório? Spoiler: não foi uma mulher.
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– Os homens e mulheres já têm direitos iguais, o Feminismo não é mais necessário.
Podemos votar e ser votadas. Podemos trabalhar e dirigir empresas. Podemos várias coisas que não eram permitidas há alguns anos atrás. Porém, o número de mulheres na política, assim como diretoria de empresas, ainda é mínimo. Fora isso, voto e trabalho são exemplos do que já foi alcançado, mas ainda há muito pela frente. No Brasil, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. E quando uma mulher sofre algum tipo de violência, a sociedade a culpa por isso, por ter sido irresponsável em viajar sozinha,  em sair à noite ou porque alguma coisa errada ela deve ter feito (estava pedindo com aquela saia tão curta, não é não?). Isso pra citar alguns poucos exemplos. Até mesmo aquela “inocente” piadinha machista do Whatsapp contribui para legitimar um sistema muito maior que mata e desvaloriza as mulheres todos os dias.
XXX
Piadinha machista? Faz parte do iceberg.

Piadinha machista? Faz parte do iceberg.

– Os homens e as mulheres tem papéis diferentes na sociedade, isso sempre foi assim, etc, etc.
Tenho preguiça deste, então responderei com uma imagem
 XXX
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Obs.: “isso sempre foi assim” não é um argumento lá muito bom em nenhuma situação. Obrigada, de nada.
 XXX
Vale a pena relembrar do que realmente se trata o 8 de março.
Aproveito para deixar aqui vários links de sites e blogs ótimos que falam de Feminismo e outras cositas. Divirtam-se.

Simone