Quem tem medo do Feminismo

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AVISO: este é um textão.

Uma das candidatas bem colocadas na redação do ENEM 2015 disse que aprendeu na internet tudo o que ela sabia sobre o tema. Miga, te entendo profundamente. Foi mais ou menos há uns seis ou sete anos que eu descobri o maravilhoso blog da Lola e tantos outros. E foi quando eu constatei que eu era feminista há muito  tempo, só não sabia. De novo: FEMINISTA. Porque, aparentemente, essa palavra gera medo e outros sentimentos menos nobres.

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Medo, muito medo

Exemplo disso: fim do ano passado a escritora (e feminista) Clara Averbuck foi ao programa Esquenta, para justamente falar sobre o assunto. A Regina Casé iniciou o quadro com o “Teste para saber se você é feminista”, criado por Cynthia Semínaris. Reproduzo aqui:

1. Você concorda que uma mulher deve receber o mesmo valor que um homem para realizar o mesmo trabalho?
2. Você concorda que mulheres devem ter direito a votarem e serem votadas?
3. Você concorda que mulheres devem ser as únicas responsáveis pela escolha da profissão, e que essa decisão não pode ser imposta pelo Estado, pela escola nem pela família?
4. Você concorda que mulheres devem receber a mesma educação escolar que os homens?
5. Você concorda que cuidar das crianças seja uma obrigação de ambos os pais?
6. Você concorda que mulheres devem ter autonomia para gerir seu dinheiro e seus bens?
7. Você concorda que mulheres devem escolher se, e quando, se tornarão mães?
8. Você concorda que uma mulher não pode sofrer violência física ou psicológica por se recusar a fazer sexo ou a obedecer ao pai ou marido?
9. Você concorda que atividades domésticas são de responsabilidade dos moradores da casa, sejam eles homens ou mulheres?
10. Você concorda que mulheres não podem ser espancadas ou mortas por não quererem continuar em um relacionamento afetivo?

Você respondeu “sim” para essas perguntas? Parabéns, bem-vindo ao clube.

F-E-M-I-N-I-S-T-A

F-E-M-I-N-I-S-T-A

Depois do programa, reproduziram parte do quadro e o teste em um site qualquer. Um dos comentários (referindo-se ao teste) dizia: “Mas isso não é ser feminista, isso é apenas ter bom senso.” Mas O QUEEEE?????

What?!

What?!

Um teste elaborado por uma feminista. Que faz perguntas referentes a conquistas históricas do movimento feminista. E que aborda muitas das reivindicações feitas ainda hoje (adivinha por quem?). Mas DEUSOLIVRE chamar isso de Feminismo, esse palavrão. É apenas bom senso.

Aham, senta lá.

Aham, senta lá.

Outro exemplo é a frase “Não sou feminista , sou humanista”, usada exaustivamente. Aff, sério? Uma busca de 10 segundos no Google é capaz de mostrar o problema desta afirmação:

Feminismo: é um movimento político, filosófico e social que defende a igualdade de direitos entre mulheres e homens.

Humanismo: 1. movimento intelectual difundido na Europa durante a Renascença e inspirado na civilização greco-romana, que valorizava um saber crítico voltado para um maior conhecimento do homem e uma cultura capaz de desenvolver as potencialidades da condição humana. 2. conjunto de doutrinas fundamentadas de maneira precípua nos interesses, potencialidades e faculdades do ser humano, sublinhando sua capacidade para a criação e transformação da realidade natural e social, e seu livre-arbítrio diante de pretensos poderes transcendentes, ou de condicionamentos naturais e históricos. 3. vasta formação cultural que abrange o conhecimento das obras clássicas e o saber científico.
 XXX
Ou seja, tu não pode comparar as duas coisas porque elas não têm nada a ver. É mais ou menos como alguém dizer “Não sou gremista, sou canhoto”.
XXX
Hein?!

Hein?!

Qual seria a explicação desse medo todo? Levantei algumas hipóteses.
 XXX
HIPÓTESE NÚMERO 1: o problema é o “ista”.
O “ista” está presente em várias palavras bem ruins (fascista, nazista, racista…) o que poderia trazer uma carga negativa para “feminista”. Mas isso não faz sentido se pensarmos no grande número de palavras que são ótimas também terminadas em ista . Eu nunca vi ninguém odiando um flautista, por exemplo.
XXX
HIPÓTESE NÚMERO 2: o problema é o “femin”.
Na sociedade machista em que vivemos, o que é feminino, o que se refere à mulher, é visto como algo ruim. Algo que remete à fraqueza, à futilidade, à capacidade inferior e tantas outras coisas nada elogiosas relacionadas ao feminino, consciente ou inconscientemente. Aí, um movimento ser chamado “Feminista”, boa coisa não pode ser, não é mesmo? Pois então… esta hipótese só ajuda a confirmar porque o Feminismo é tão necessário.
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HIPÓTESE NÚMERO 3: as ideias erradas sobre o que é o Feminismo.
O Feminismo é múltiplo, porque as demandas são diferentes em diferentes grupos de mulheres (negras, trans, lésbicas, indígenas…). Porém, ideias equivocadas atribuídas ao Feminismo não fazem parte dessas demandas. Duas que me vem à mente:
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– O Feminismo quer obrigar as mulheres a _________________.
Já ouvi gente completando a frase acima com “não se depilar”, “não usar maquiagem”, “não se casar” e várias outras coisas. NÃO, apenas NÃO. O Feminismo não quer obrigar as mulheres a qualquer coisa. O Feminismo quer dar escolhas. Quer se depilar? Ok. Não quer? Ok também. Quer usar maquiagem até em casa? Tudo certo. Quer viver de cara lavada? Também tudo certo. Quer casar de véu e grinalda na igreja com festa e tudo mais? Ok. Quer viver solteira trocando de namorado(a) a cada semana, ou sem namorado(a) nenhum? Ok também, porque a vida e o corpo são teus e de ninguém mais. Vale colocar que o Feminismo questiona/reflete/problematiza por que as mulheres sentem-se pressionadas a usar maquiagem ou casar, mesmo quando não estão confortáveis com isso.
XXX
– O Feminismo prega a superioridade das mulheres em relação aos homens. 

Errado. O Feminismo busca a igualdade de direitos, reconhecendo as diferenças. O machismo é que prega a superioridade de um gênero (o masculino, no caso).

HIPÓTESE NÚMERO 4: os argumentos contra o Feminismo.
Sim, eles existem. Isso não quer dizer que qualquer um deles se sustente. Mas vamos a alguns deles:
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– Se o Feminismo luta por igualdade, deveria lutar pelo alistamento obrigatório para as mulheres.
Novamente, o Feminismo é sobre escolhas. Qual o sentido então de lutar para que o alistamento também seja obrigatório para as mulheres ? Nenhum. O que faria sentido é que o grupo que se sente prejudicado reivindique o fim dessa prática. E adivinhe quem foi que criou o alistamento obrigatório? Spoiler: não foi uma mulher.
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– Os homens e mulheres já têm direitos iguais, o Feminismo não é mais necessário.
Podemos votar e ser votadas. Podemos trabalhar e dirigir empresas. Podemos várias coisas que não eram permitidas há alguns anos atrás. Porém, o número de mulheres na política, assim como diretoria de empresas, ainda é mínimo. Fora isso, voto e trabalho são exemplos do que já foi alcançado, mas ainda há muito pela frente. No Brasil, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. E quando uma mulher sofre algum tipo de violência, a sociedade a culpa por isso, por ter sido irresponsável em viajar sozinha,  em sair à noite ou porque alguma coisa errada ela deve ter feito (estava pedindo com aquela saia tão curta, não é não?). Isso pra citar alguns poucos exemplos. Até mesmo aquela “inocente” piadinha machista do Whatsapp contribui para legitimar um sistema muito maior que mata e desvaloriza as mulheres todos os dias.
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Piadinha machista? Faz parte do iceberg.

Piadinha machista? Faz parte do iceberg.

– Os homens e as mulheres tem papéis diferentes na sociedade, isso sempre foi assim, etc, etc.
Tenho preguiça deste, então responderei com uma imagem
 XXX
Afff

Afff

Obs.: “isso sempre foi assim” não é um argumento lá muito bom em nenhuma situação. Obrigada, de nada.
 XXX
Vale a pena relembrar do que realmente se trata o 8 de março.
Aproveito para deixar aqui vários links de sites e blogs ótimos que falam de Feminismo e outras cositas. Divirtam-se.

Simone

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Melhores 2015

Ainda sobre 2015, e seguindo no cultivo de listas, aí vão os melhores do ano, segundo o IAGO (Instituto Ana de Gostos e Opiniões).

Livro: Tudo são histórias de amor – Dulce Maria Cardoso

Dulce

O livro é de 2014, mas foi lido em 2015 então é o que conta 😛                                                    A primeira vista esse livro pode enganar pelo título água com açúcar. Mas ele é brutal em vários momentos. E maravilhoso. E me abalou como há algum tempo nenhum outro livro fazia. Dulce, mal te conheço, mas já te considero pacas ❤

 

Filme: Birdman

Eu amei tudo nesse filme: as atuações, a maneira como foi filmado, o humor ácido, a trilha sonora… Não vi nenhum outro em 2015 que tenha gostado tanto.

Mas faço uma menção honrosa ao Que horas ela volta? e ao Olmo e a gaivota MARAVILHOSOS!!!

 

Série: Sense8

Diferente de qualquer outra coisa lançada em 2015. Conservadores devem ter ficado de cabelo em pé. Tem falhas de roteiro? Tem. Cai em alguns estereótipos? Cai. E ainda assim consegue ser ótima. Em particular, me emocionou esta cena com um baladão duvidoso dos anos 90.

 

Youtuber: Jout Jout

Nunca, NUNCA na vida fui de acompanhar canais do Youtube. E os tais “Youtubers”, muito menos. Via alguns vídeos aleatórios, mas nunca tive muita paciência. Depois do sucesso do vídeo do batom vermelho (aqui), descobri a Jout Jout e virei fã. Os vídeos dela tratam desde assuntos sérios (como esse do batom, sobre relacionamentos abusivos), até outros com temas bem leves e bobagentos – daquelas coisas loucas da internet que parecem só fazer sentido (e terem graça) nela. Exemplo supremo disso, o clipe do funk com o questionamento eterno “Biscoito ou bolacha?”. Mas já que estamos (ainda estamos?) em época de resoluções de ano novo, deixo este vídeo:

 

Site: Lugar de Mulher

Lugar

Escrito por Ana Paula Barbi, Clara Averbuck e Mari Messias. Textos ótimos, ótimos, ótimos. Bom conteúdo, bem escritos, engraçados (quando possível), informativos. Foi um desses que me apresentou a Nina Simone, então não precisava de muito mais para ser maravilhoso 🙂 (mas é).  A descrição do próprio site é melhor do que qualquer uma que eu tente fazer, então clique aqui.

 

Show: Foo Fighters

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Eu quase não acreditei quando soube que eles viriam em Porto Alegre. Foi lindo, foi muito lindo. Rolou uma lágrima quando tocaram a música aqui de baixo, e olha que eu não sou de me emocionar em shows (mentira, eu choro em todos).

 

Música: não achei uma favorita nesta categoria que fosse de 2015. Aí pedi socorro ao Google e constatei que não conhecia 90% das músicas que diziam serem as melhores do ano. Deixo aqui então um Beatles, porque todo ano é sempre bom (pelo menos é o que diz o IAGO).